« Anterior | Próximo »

A História da caipirinha , a nossa e legítima caipirinha de limão açúcar e cachaça, se confunde com a própria história da cachaça. Esta por sua vez, remonta não só do Brasil. Já havia registros da produção de cachaça em manuscritos de Sá de Miranda (1.491 a 1558), em Portugal. Pode-se dizer , pelo menos , que a tecnologia para a fabricação da cachaça já existia. Se avançarmos um pouco no tempo, por volta do século XVI, com a introdução da cultura da cana-de-açúcar no Brasil Colonial, poderemos entender melhor essa mistura. Porém, os colonos tomavam a cachaça pura e não a mistruravam com outros ingredientes. Para falarmos da caipirinha, é necessário também que se conte algo a respeita da fruta.

Os colonos ignoravam a abundância das frutas na nossa terra, que era vastamente consumida por escravos e índios, no Brasil, e, como não poderia deixar de ser, em festas que os escravos faziam tomavam da garapa, o suco da cana ainda não fermentado, e era comum misturarem frutas ou suco das frutas no caldo de cana. As frutas cítricas concedem uma nota de contraste ao suco da cana. O limão, introduzido nas Américas por Colombo, o mais cítrico e de sabor mais realçado, deve ter sido o mais usado a partir de sua chegada nos engenhos. Nos engenhos, o que restava da produção de açúcar era dado aos escravos e aos animais. Esse material era a borra do melaço fermentada, mais conhecido hoje como “vinho de cana”. Esta borra é chamada até hoje pelos espanhóis de “cachaza” ou “cagassa” em português. Os jesuítas registraram que a “áugoa ardente” era dada aos escravos. Enfim, com esses ingredientes , não é difícil acreditar que a caiprinha, a nossa caipirinha, sempre de cachaça, a legítima, tenho surgido nessa época, em cerimônias e festas religiosas de escravos.

É evidente também, que o gêlo na caipirinha só surgiu com o avanço da tecnologia, muitos séculos depois. Avançando mais ainda no tempo, as expressões modernistas do início do século XX, começavam a se insurgir contra o poderio cultural da Europa, e começaram a difundir artes e culinária genuinamente produzidas no Brasil. Vários escritores como Oswald de Andrade , Mário de Andrade, Monteiro Lobato, tratam já da caipirinha em seus escritos. Conta-se que Tarsila do Amaral, na década de 20, organizava grandes feijoadas em Paris e conseguia o feijão em mercadinhos locais. Mas a cachaça para a caipirinha ia do Brasil, rotulada como “produto de beleza” para passar pela alfândega francesa.

O assunto em questão, o coquetel Caipirinha viria a ser tratado com a devida seriedade, quando o Barman Derivan Ferreira de Souza quis incluir a bebida, a nossa Caipirinha, no Cardápio Oficial Internacional da IBA (International Bartenders Association www.iba-world.com

Os países que faziam parte da “International Board” dos coquetéis, agora tinham um representante brasileiro e, em junho de 1993, na Conferência de Hamburgo que iria tratar da inserção de mais coquetéis no então cardápio oficial de 50 coquetéis para votação na Convenção de Toronto, no Canadá em outubro do mesmo ano, e surgiu, claro, a proposta para incluir a Caipirinha na pauta para definição da receita oficial.  Nestas Convenções, para se inserir um coquetel, deveriam equilibrar a receita e apurar o sabor, e, assim, definir a receita oficial e sua inserção no cardápio oficial da IBA através de votação de uma acirrada votação.

Na Convenção em Toronto, havia uma mesa julgadora, com 12 integrantes com direito a voto.  Jan Van Hagen, holandês era o presidente da mesa e da IBA, e convocava todos para a votação dada como certa para Derivan. Foi um momento difícil. A caipirinha como conhecemos já era apreciada em países como Alemanha, França, Portugal, Estados Unidos e outros mais ainda, mas a comunidade dos países nórdicos, financiada por uma marca famosa de bebida, apresentou outra receita com vodka e abacaxi, se dizendo como caipirinha também, sem a menor cultura para tal, mas tinha em mente uma estratégia de marketing que seria poderosa se desse certo.  Caso desse certo essa estratégia, hoje o mundo conheceria o drink “caipirinha” sendo vinculado a uma marca especifica de “vodka” e ainda como um drink feito com “abacaxi e vodka” .

Sem o apoio do presidente,  Derivan tratou de “costurar” para saber o que havia acontecido de errado durante o coffee break da votação. Como poderiam conhecer sequer a palavra “caipirinha”, tão legitimamente basileira , e ainda se contrapor à origem do coquetel de forma a elaborar um “contra”?  Em poucos minutos Derivan convenceu alguns eleitores a votar na receita brasileira, mas não eram suficientes ainda. Foi então que a estratégia de Cesar, o imperador Romano, começou a ser colocada em prática: dividí-los para governar. Os “nórdicos” foram colocados à mesa para votação, pelo Holandês Van Hagen, mas separadamente, enquanto Derivan convencia o filandês a dar seu voto de minerva em favor da Caipirinha Brasileira. Então, para surpresa dos adversários, nossa Caipirinha triunfou com um “golaço” do Derivan, que voltou para o Brasil com o cardápio oficial da IBA embaixo do braço, já com a Caipirinha de cachaça, limão, açúcar e gêlo inclusa, e com uma segunda versão também reconhecida que dava a possibilidade de paises que não tivessem o limão , usassem xaropes, sumo de limão, ou ainda desidratado ( a nossa “batida” também é chamada de “caipirinha”), Pois é: a coisa é oficial mesmo.

Veja nosso video – receita de Caipirinha com o Mestre Derivan aqui : http://www.cachacasapucaia.com.br/?p=689

 

Categorias: Caipirinha